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Manifesto Frente Psi

Nós, psicólogas e psicólogos, vivemos muitas mudanças na sociedade e no mercado de trabalho nos últimos anos. Nesses contextos diversificados e de crescente complexidade, em muito cresceu a demanda pelo nosso trabalho; no entanto, essa demanda não foi acompanhada por  uma oferta proporcional de condições de ela trabalho adequadas.

No setor privado, prevalecem honorários achatados e plataformas que ditam preços. No setor público, equipes reduzidas, sobrecarga e falta de suporte.

Entre os assalariados, cresce a insegurança que se pensava exclusiva do trabalho autônomo: com vínculos instáveis, pressão por produtividade e ausência de perspectivas.

Em qualquer contexto, os riscos psicossociais aumentam e nós não ficamos imunes a eles. Profissionais que cuidam também precisam de condições para serem cuidados.

Vivemos uma crise de saúde mental sem precedentes com impactos fortemente sentidos por quem a enfrenta todos os dias, nos mais diferentes espaços de atuação profissional.

Ao mesmo tempo, a Psicologia Brasileira enfrenta disputas que afetam diretamente o que acontece dentro do exercício profissional: disputas pelo destino da formação profissional, pelo lugar da ciência, pelas regras do mercado de trabalho, pelo papel das políticas públicas. Essas não são questões distantes. São questões de quem trabalha nas diversas áreas de atuação, de quem ensina e de quem pesquisa, ou seja, de toda a categoria.

O que chamamos hoje de “Movimento Frente Psi” constituiu-se em 2018, em contexto eleitoral, como um grupo de profissionais unidos para defender as bases éticas, científicas e democráticas da profissão. Muito foi conquistado, porém muito ainda está por fazer.

Nosso compromisso com a profissão não mudou, razão pela qual nós nos reapresentamos agora como um movimento aberto à diversidade da nossa categoria: às diferentes abordagens teóricas, às múltiplas áreas de atuação e às distintas trajetórias que compõem a Psicologia brasileira.

Com quem falamos

Falamos com trabalhadores e trabalhadoras da Psicologia: profissionais autônomas(os), celetistas, do setor público e do setor privado. Falamos com docentes e pesquisadoras(es).

Falamos especialmente com quem tem sido sub-representada(o) nas decisões da profissão e com quem sustenta a Psicologia Brasileira em condições adversas.

Falamos também com estudantes que participam da construção da Psicologia.

Propomos convergência em torno do que nos é comum: o compromisso com o trabalho digno, ético e valorizado, com a formação séria, com a ciência rigorosa e com a profissão a serviço da construção de uma sociedade democrática e justa.

O que defendemos

Trabalho digno: A trabalhadora e o trabalhador da Psicologia são constantemente demandadas(os) a sustentar processos de cuidado, escuta e acolhimento diante do sofrimento contemporâneo, na formação humana e promoção de bem-viver. Torna-se necessária uma remuneração que permita viver sem acumular atendimentos e tarefas, além do sustentável, com vínculos de estabilidade, proteção e jornadas compatíveis com a saúde de quem cuida. A precariedade não é somente injustiça econômica; compromete a qualidade do cuidado e adoece quem trabalha.

 

Formação qualificada: Universidades com elevada qualidade ética e acadêmica e atentas aos novos desafios da profissão, valorização do trabalho docente em todas as suas formas e defesa pela presencialidade do curso de graduação: tal conquista impediu que o Ensino à Distância (EAD) tomasse conta da formação, garantindo que os cursos de Psicologia permaneçam presenciais. A Psicologia se faz com presença, e um diploma sem formação sólida prejudica o exercício profissional e as pessoas que serão atendidas. 

 

Ciência e qualidade técnica: A ciência é a base do nosso trabalho profissional qualificado, sendo a garantia de que a Psicologia responda com responsabilidade às pessoas e instituições. Defendemos o rigor metodológico e a diversidade teórica como valores complementares, recusando tanto o dogmatismo que reduz a Psicologia a um único modelo quanto o anticientificismo de práticas sem evidências que desinformam a sociedade e causam danos reais a quem é atendido.

 

Soberania frente à tecnologia: Plataformas digitais e inteligência artificial já estão transformando o exercício profissional e, muitas vezes, sem que a categoria tenha sido consultada. Defendemos a regulação dessas tecnologias nas nossas áreas de atuação, a proteção dos dados de profissionais, pacientes e usuários, e a construção de alternativas coletivas que priorizem a atuação ética, a saúde e o bem-estar da(o) profissional. Além de criticar, precisamos disputar este território com inteligência argumentativa e realista.

 

Psicologia nos territórios e nas políticas públicas: A Psicologia precisa estar onde se produz o sofrimento e onde os direitos precisam ser garantidos: no SUS e na saúde mental, no SUAS e na assistência social, nas escolas e na educação pública, nos sistemas de justiça e socioeducativo, nas prisões, nas emergências e desastres, nos territórios rurais, nas periferias, nas florestas, nas fronteiras, nos quilombos, nas comunidades indígenas. Não como presença simbólica e sim como campo estruturante de atuação profissional, com equipes, condições e reconhecimento. Defendemos políticas públicas que garantam esse lugar.

 

Direitos humanos e democracia: Esse é o compromisso ético que a Psicologia Brasileira vem construindo há décadas, inclusive na luta pela redemocratização, que pertence à profissão inteira. Não abrimos mão dele. Isso significa defender o direito à diferença, à pluralidade de existências, à vida livre do racismo, do machismo, da LGBTQIAPN+fobia, do capacitismo e de todas as formas de discriminação.

 

Pluralidade e unidade do campo: A Psicologia brasileira é rica em suas abordagens teóricas, em seus diversos contextos de atuação e em suas tradições de pesquisa. Essa diversidade é um patrimônio a ser celebrado e ampliado. Investimos no fortalecimento da pluralidade do nosso exercício profissional e nos comprometemos a manter, ampliar e consolidar vínculos com as entidades científicas, profissionais, sindicais e estudantis que organizam e articulam o campo de construção e práxis da Psicologia.

O papel do Sistema Conselhos

O Conselho Federal de Psicologia (CFP) e os Conselhos Regionais de Psicologia (CRPs) são autarquias públicas federais com competência normativa real, não são sindicatos, não são partidos, não são organizações ou movimentos da sociedade civil. Têm poder concreto de regular o exercício profissional, fiscalizar as práticas, normatizar a ética, orientar práticas e representar a profissão perante o Estado. Foi uma resolução do CFP que impediu a chamada "cura gay".

É o CFP que pode regulamentar o uso de IA na avaliação psicológica e estabelecer parâmetros para plataformas digitais. É o CFP que disciplina o uso de instrumentos psicológicos nas suas diversas práticas profissionais. Foi o CFP, em colaboração com a Associação Brasileira de Ensino em Psicologia (ABEP) e outras importantes entidades da Psicologia, que realizou significativas análises sobre os problemas e desafios da nossa formação e exercício profissional, que se tornaram base para a definição de princípios e ações prioritárias na defesa da presencialidade.

 Esse potencial multiplica-se quando o Sistema Conselhos atua em articulação com sindicatos, associações científicas, entidades profissionais, estudantis e movimentos da categoria, uma vez que é na convergência dessas forças que a Psicologia encontra sua voz coletiva mais ampla.

Defendemos um Sistema Conselhos transparente, orientado por uma cultura de serviço e de parceria técnica com quem exerce, ensina e pesquisa Psicologia. Um Sistema Conselhos comprometido com a descentralização e regionalização reais: os rumos da profissão não podem continuar sendo decididos apenas nos grandes centros.

O Sistema Conselhos de Psicologia precisa tornar-se mais sensível e atento aos grandes desafios que a sociedade brasileira enfrenta em um mundo de intensas transformações, tensões e complexidades. As realidades e pluralidades da nossa Psicologia precisam ser reconhecidas e validadas: os Brasis da Psicologia merecem ser reconhecidos pelo Brasil.

Defendemos um Sistema Conselhos atento aos grandes desafios que a sociedade brasileira enfrenta num mundo de intensas transformações: as novas formas de sofrimento, a crise climática, as desigualdades persistentes, as tecnologias que redefinem o cuidado. Quando o CFP e os CRPs trabalham de forma articulada e com esse horizonte, ganha a Psicologia e ganha a sociedade brasileira.

Um convite a você, trabalhadora e trabalhador da Psicologia

Nós trabalhamos com as mais diversas demandas e faixas etárias: prestamos nossos serviços, na maioria das vezes, às pessoas com suas subjetividades em crise. Oferecemos recursos para a construção de subjetividades mais livres, mais solidárias e mais comprometidas com a vida em comum. Prestar um serviço psicológico digno é fazer-se respeitado, reconhecido, promovendo a valorização e defesa da Psicologia como ciência e profissão.

Como atuar com o compromisso ético com o bem-viver sem condições dignas de trabalho, sobrecarga, esgotamento e precarização das jornadas de trabalho? Torna-se difícil sustentar práticas de cuidado, escuta e produção de vida saudável à população.

Convidamos ao diálogo todos os trabalhadores e trabalhadoras da Psicologia, docentes, pesquisadoras e pesquisadores, estudantes, coletivos, movimentos, sindicatos e associações de todas as regiões de nosso Brasil!

O convite é para todas as abordagens, todos os contextos e todas as trajetórias de nossa profissão, para o diálogo, a escuta e a construção compartilhada de caminhos para que o nosso compromisso com o bem-viver de toda a população seja uma orientação ética do que fazemos, como fazemos e do porquê fazemos. 

 

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